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Doutor Jupter: batemos um papo sobre 10 anos de carreira, projetos futuros e música independente no Brasil

Doutor Jupter completa 10 anos em 2017 e está em turnê comemorativa. O grupo mistura folk, country e música brasileira para dar origem ao seu excelente rock caipira. Nós batemos um papo com Ricardo Massonetto, idealizador, compositor e vocalista da banda, para saber um pouco sobre as lições aprendidas até aqui e o futuro da banda. O resultado foi um aprendizado sobre a realidade da música independente no Brasil e boas expectativas para o futuro que projetos como esse tem ajudado a construir. Confere aí!

FolkdaWorld:  Vocês contam com 4 trabalhos na bagagem, o primeiro deles foi um EP produzido pelo Edgard Scandurra. Como foi para vocês começar já com esse pé direito?

Ricardo Massonetto: o Edgard é uma pessoa acima das palavras. Uma mente inquieta e criativa! Será sempre um dos maiores ícones da nossa música. Tivemos a oportunidade de trabalhar com ele, em um período de muitas redescobertas ideológicas e musicais de todo o grupo. Apesar de na ocasião, o Edgard estar a todo vapor, com as gravações do álbum do Jeneci, do Arnaldo Antunes, shows do projeto Pequeno Cidadão, o DVD “Amigos Invisíveis” do seu trabalho solo, e outros (risos) – é impressionante a disposição dele pra essas rotinas criativas – foi muito generoso conosco. Se envolveu profundamente na criação dos arranjos, também gravou guitarra e vozes em algumas faixas, participou de 2 shows do lançamento do EP. Em um deles ficou uma hora e meia no palco conosco. Tocamos várias canções dele, da banda e releituras nacionais do fundo do baú. Foi um momento único e inesquecível.

FDW: Como vocês encaram o cenário da música independente no Brasil? Principalmente nessa área folk/caipira… No meu ponto de vista de curadora e produtora de conteúdo, parece ser um grande desafio.

Ricardo Massonetto: Temos um cenário muito criativo e de trabalhos extremamente inspirados. Esse legado será reconhecido, mesmo que apenas no futuro, caso não sejamos capazes de criar estruturas mais consistentes para difusão e consolidação dos artistas desta geração. São tantos fatores que poderíamos citar, que é até difícil de resumir, mas é necessário que tenhamos grandes mudanças, para o início de um fortalecimento.

O segmento do audiovisual, por exemplo, recebeu um gigantesco impulso com o aprimoramento de políticas de valorização dessa linguagem artística. Entre inúmeros avanços, podemos destacar a criação de leis que garantem o espaço para a produção nacional em canais de TVs abertas, à cabo e satélite, em horário nobre. Isso estimula a produção, contribui com a difusão desses trabalhos, fortalece todo seu setor produtivo e cria um cenário sustentável.

A música deve ter também esse espaço na produção audiovisual brasileira, além de reconquistar todo o espaço perdido nos veículos de radiodifusão. Todas essas “concessões” da comunicação brasileira devem respeitar seu papel cultural, social e cidadão. É necessário valorizar e estimular nossa cultura e nossa arte. A política do “jabá” é ilegal. Talvez apenas através de novas leis, consigamos corrigir esse desvio de finalidade, e na grande maioria dos casos, o desserviço prestado ao país.

As plataformas e veículos de internet representam um oxigênio para esse cenário, mas ainda é insuficiente. Basta observarmos a realidade no momento. Todas as mutações e experiências dos últimos dez anos ainda não criaram mecanismos efetivos. São poucas exceções de plataformas que sobrevivem ao dinamismo desse nosso “mundo comercial”. Bons exemplos talvez sejam os extintos canais brasileiros de conteúdo como os canais Trama Virtual, Oi Novo Som, MelodyBox e outros… O poder econômico ainda dita a direção do consumo de música no Brasil. Os espaços para que a música independente possa atingir novos públicos são loteados.

Nos dedicamos integralmente ao setor cultural e artístico. Eu e minha maior parceira de composições, ideologia e de vida, a Mariana, temos uma agência de produção cultural, atuamos ativamente pelo desenvolvimento deste setor em nosso país, estado e região, e junto com inúmeros agentes culturais, ocupamos todos os espaços existentes em Fóruns, Conferências e Conselhos Culturais, que possibilitem meios de agir efetivamente em uma transformação e na reconstrução deste cenário.

Acho que o folk e o rock caipira, estilos que também trazem muitos elementos da cultura brasileira para a música, enfrentam a fundo todas as dificuldades que acabamos de mencionar. Não são estilos musicais pautados por oportunismo comercial, desta forma, não há abertura nos principais veículos de comunicação do país, consequentemente há um consumo muito restrito deste estilo musical, pouco estímulo e dificuldade para viabilizar novas produções.

Iniciativas como o FolkdaWord são extremamente vitais para a sobrevivência da música folk em nosso país. Torcemos muito para que tenhamos outros projetos e iniciativas tão dignas e importantes para nossa cultura.

FDW: Neste ano a Doutor Jupter está completando 10 anos de carreira. Que momento desse período vocês guardam com mais carinho?

Ricardo Massonetto: É quase impossível citarmos apenas um momento em específico… Considero cada lançamento que fizemos como o nascimento de um filho. Junto com cada trabalho vem uma enxurrada de histórias, tropeços, alegrias e principalmente o amadurecimento com tudo isso. A dedicação à composição é uma entrega muito grande, o que faz de cada trabalho concretizado, um divisor de águas em nossas vidas.

Posso considerar que guardo com todo carinho nossa obra, na qual colocamos cada tijolinho e entre terremotos e tempestades temos mantido de pé.

FDW: E os obstáculos foram muitos até aqui?

Ricardo Massonetto: Sim! Muitos e muitos! Quando encaramos a mudança de nossa cidade, Ribeirão Preto, para a competitiva São Paulo, fomos surpreendidos pelo crescimento das plataformas de internet, que começavam a ganhar força com o surgimento do Youtube e Orkut por exemplo. Na sequência surgiu o My Space e outros inúmeros canais de música, que tornaram totalmente possível a difusão de qualquer trabalho musical, para qualquer parte do Brasil e do mundo. Todas as dificuldades enfrentadas até então para que pudéssemos ficar mais próximos do cenário da música independente, em São Paulo, perderam o sentido de certa forma, pois nos preparamos para uma atuação mais efetiva na estrada e podendo estar em diferentes palcos, de fato uma atuação de campo – e assim fizemos – mas talvez o momento demandasse uma atuação mais virtual para projetar os trabalhos com maior eficiência. Fomos totalmente na contramão.

Ao invés de assinarmos um bom plano de internet e permanecermos no conforto de nossa terra natal, enfrentamos a mudança de Ribeirão Preto para a região metropolitana de São Paulo com uma Veraneio 79 e a casa literalmente no bagageiro:

– Madrugadas e mais madrugadas em todo tipo de palco pelo estado, às vezes em shows de até três horas de duração, onde tínhamos que somar ao nosso repertório releituras caipirizadas de músicas do Brasil e do mundo;

– Um cenário cultural e artístico sucateado e totalmente virtual;

– A dificuldade de financiar e difundir as produções do grupo e;

– Vale ressaltar também o fato de sermos “apenas um grupo do interior de São Paulo” na capital. Capital essa, que é estratégica para o acesso ao país, da cultura proveniente de todo o Brasil e de todo o mundo.

FDW: O que vocês almejam para os próximos 10 anos de banda?

Ricardo Massonetto: Pretendemos rodar o máximo que conseguirmos com o show comemorativo dos dez anos. A Turnê conta com o apoio do ProAC, o Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo, e já temos shows programados em Santos, São Sebastião, Presidente Prudente, São José do Rio Preto, Piracicaba, São Carlos, Mairiporã, São Paulo e Ribeirão Preto. Passaremos pela maioria destas cidades ainda no primeiro semestre, mas já estamos montando agenda para o segundo semestre também.

Criar e compor é uma necessidade vital para nós, mas ainda não temos data para um novo lançamento com o grupo. Na nossa opinião o “Na Varanda” ainda é muito novo e precisa de mais um tempo de maturação. Vamos insistir à moda antiga: levar o repertório para os palcos.

Há um tempo venho “guardando” canções muito íntimas e pessoais para colocar em prática um sonho antigo, de lançar um trabalho solo: Massonetto, o que deve acontecer muito em breve, em paralelo com o trabalho da banda.


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