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Os 10 anos de “Apenas Uma Vez” (e como estamos desde então): um relato de um fã grato

Eu ainda lembro daquele dia. Juro pra você. Em 2008, eu costumava caminhar uns dez, talvez quinze minutos até chegar em uma das poucas videolocadoras que resistiram onde eu morava. Era uma espécie de ritual: Eu separava uma parte do dia e ia até lá porque realmente queria encontrar algo pra assistir. Tinha uma cacetada de filmes, dos mais conhecidos a títulos nem tão famosos – Um punhado de filmes B e independentes que demoravam um ano ou pouco mais pra chegar aqui. Nessa prateleira encontrei “Apenas Uma Vez”.

Em poucos minutos, me deparei com essa cena:

Eu voltei três vezes pra ouvir “Say It To Me Now”, só depois consegui deixar pra lá e continuar o filme. Nunca havia ouvido algo assim. Claro, eu já tocava naquela época e tinha um gosto maior pelo violão, mas nada que eu tivesse ouvido me preparou para a intensidade da voz de Glen Hansard e a surra que ele dava nas cordas do seu velho Takamine. A sensação de encontrar algo novo para os ouvidos me fez muito bem e isso se repetia em cada canção.

O filme e a trilha se fortalecem pela sua simplicidade, é a história de um cara que conhece uma garota, vivida pela pianista tcheca Marketa Irglova, e a relação dos dois é intensificada pela música. Fim. Não há reviravolta no enredo, não há um grande segredo, só a sensação de ser mais plausível do que gostaríamos que fosse. Você já ficou na fossa por conta do antigo relacionamento, já teve que lidar com uma situação e por conta dela amadureceu em algum aspecto e já teve aquele crushzão platônico intensificado por aquela playlist danada, né? Então! O próprio John Carney, diretor e antigo companheiro de banda do Glen, disse que o filme deu certo porque ele “cabe num cartão postal”. A despretensão serviu também para as filmagens, sendo usadas duas câmeras de mão que geralmente estavam escondidas onde resolviam filmar, dando um toque quase documental para a obra.

onceOs personagens são opostos e complementares: Ele está estacionado na fragilidade e usa o violão para encontrar forças e tocar a vida dali pra frente. Ela, por outro lado, não tem opção nenhuma a não ser a força, criando a filha vendendo flores nas ruas e fazendo faxina. É justamente ela quem o encoraja à gravar, que negocia por um preço melhor no estúdio e convence o gerente do banco sobre o empréstimo que precisam fazer. Em contrapartida, as músicas são suaves e ela pede por conforto e paz de espírito em cada nota ao piano.

O filme foi certeiro em transmitir essa atmosfera repleta de anseios e isso também foi sentido pela crítica. Primeiro, o filme foi exibido e ovacionado no festival Sundance, grande expoente do cinema independente. Uma vez lá, a Fox acabou comprando os direitos de distribuição e depois disso o Oscar de melhor canção original. Para Glen e Marketa – agora sob a alcunha de The Swell Season – um disco, uma turnê, um casamento, uma separação e um novo disco. É interessante sentir que, apesar da estética folk preservada em “Strict Joy”, não há resquício algum do que eles foram na tela. O disco é contido e desconstrói tudo que o filme fez. Ambos em carreira solo desde 2011, eles deixaram esse legado e mantiveram o público interessado naquilo que o filme tem de mais precioso – A música deles.

Tenho tanto pra falar do que “Apenas Uma Vez” me proporcionou e ainda me representa que dava pra encher uns três ou quatro textos. Claro, eu não fazia ideia da proporção que o filme teria quando o tirei daquela prateleira, mas tive a sorte de assisti-lo numa época em que estava colocando melodia nos meus primeiros versos e precisava mirar em algo que significasse muito pra mim, numa espécie de aprovação ou de procura da minha própria voz através dos ídolos. Ainda procuro e ainda penso nessas canções cheias de alma. Muito, muito obrigado.

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